O PRINCÍPIO DO FIM

Por: Pe. Juliano Ribeiro Almeida

Estamos entrando no ano 2012. Sites e canais de TV estão mostrando previsões assustadoras que várias culturas e religiões fizeram sobre este ano. Segundo o tal calendário antigo maia, no início do próximo verão, ao final de 2012, acontecerá um raro alinhamento planetário que trará distúrbios gravíssimos ao planeta Terra.

Também no cristianismo há ecos dessas predições fantásticas. Por mais que a exegese bíblica trabalhe arduamente e decodifique o livro do Apocalipse (em grego, “revelação”), provando que foi escrito de forma misteriosa para driblar a perseguição romana, muitos insistem em considerá-lo um oráculo cheio de pretensas adivinhações, e preferem interpretar seus símbolos como sendo descrições minuciosas dos terrores que afligirão a terra antes da vinda definitiva de Cristo.

Mateus, nos dois primeiros capítulos de seu Evangelho, recorre a gêneros literários fabulosos para introduzir a narrativa da vida de Jesus de Nazaré. No primeiro capítulo há uma genealogia bastante forçada, marcada por uma espécie de numerologia cabalística que tenta provar os 3 grupos de 14 gerações que vão de Abraão até Cristo. Em seguida, o evangelista apresenta mensagens passadas pelo anjo a José por meio de sonhos. No segundo capítulo, Mateus fala de magos que vêm do Oriente, guiados por um mapa astral que mete medo até no rei Herodes Magno. O trecho termina descrevendo um suposto exílio do pequeno Jesus no Egito, terra espiritualmente fascinante na literatura universal.

Se os magos seguiram a estrela e ela estava certa, estariam os cristãos autorizados pela Bíblia a crer nessas predições astrológicas sobre dezembro de 2012? O que há de científico e de mitológico na observação dos astros? Qual o limite entre astrologia e astronomia?

A intenção de Mateus não é fazer sincretismo religioso, mas colocar Jesus no centro equilibrador de todas as religiões conhecidas da época. Jesus, verdade absoluta, não é apenas um evento religioso limitado por uma etnia e uma época específicas, mas o marco por excelência na história da humanidade, o grande divisor de águas para o qual apontam todas as crenças, filosofias e ciências.

Jesus disse claramente: “Ficai de sobreaviso, vigiai, porque não sabeis quando será o tempo” (Mc 13,33). “Muitos virão em meu nome dizendo: ‘O tempo está próximo’. Não sigais essa gente!” (Lc 21,8). Portanto, se essas predições estiverem certas, Jesus estava errado. E vice-versa. Quem viver verá…

Acolhendo a Palavra viva, Jesus nasce de novo

Por: Pe. Roberto José Gonçalves

É Natal

O mês de Dezembro traz mais uma vez o tempo do Natal. E mais uma vez nossos corações e mentes se voltam para a ternura do nascimento do menino Jesus. Queremos celebrar com alegria o nascimento do nosso Salvador. Mas acima de tudo, vamos tentando conseguir celebrar com maior verdade esta festa tão bonita e importante para nossa fé, em meio a um contexto sócio-cultural, com apelos a uma celebração mágica, consumista e turística, que se aproveita de uma forte tradição religiosa para transformar a festa cristã em festa pagã.

Conhecendo a sua fundamentação bíblica, poderemos viver a tradição cristã da festa com toda a sua verdade e realismo, sem deixar, no entanto, de sonhar com o verdadeiro ideal da festa do Natal.

A festa do Natal tem como único objetivo rememorar a Encarnação do Verbo. O documento mais antigo que traz uma nota sobre ela, em Roma, é o Cronógrafo de Eurico Dionísio Filócalo (Cronógrafo Filocaliano), escrito em 350, o que denota a celebração desta festa desde antes da segunda metade do século IV. Santo Agostinho vai trazer a notícia de que também na metade do século IV, o Natal era celebrado também na África. Sempre no dia 25 de dezembro.

Esta data, 25 de Dezembro, tem, no entanto, um caráter simbólico. A explicação mais conhecida deve ser procurada no empenho da Igreja em Roma de contrapor à festa pagã do “Natalis solis invicti”.

No século III, difundiu-se no mundo grego-romano o culto ao sol, última afirmação do paganismo decadente. O imperador Aureliano (+275) deu-lhe importância oficial, com a construção de um templo em Roma, no Campo Marzio. Com Juliano Apóstata (+335), o culto ao sol tornou-se símbolo da luta pagã contra o cristianismo. A principal festa desse culto era celebrada no “Solstício de inverno, no dia 25 de dezembro”, porque representava a vitória anual do sol sobre as trevas. Para afastar os fiéis dessas celebrações idolátricas, com base numa temática bíblica (cf. Ml 3,2.20; Lc 1,78; Ef 5,8-9) , a Igreja de Roma deu a tais festas pagãs um significado diferente. (MORGANO, Gian Luigi).

O nascimento do verdadeiro sol, Cristo, é apresentado no momento do nascimento astronômico do sol. Isto explica porque a festa do Natal que tem caráter diverso da celebração pascal, pertença ao calendário solar, sendo, portanto, uma festa fixa, enquanto a Páscoa é uma festa móvel, por estar ligada ao calendário hebraico que é lunar.

A síntese dos textos citados manifesta o sentido da chegada daquele que vem em nome do Senhor e dá sentido à celebração do Natal: “Quem poderá suportar o dia de sua chegada? Quem poderá ficar de pé quando ele aparecer? Porque ele é como o fogo do fundidor, como a lixívia dos lavadeiros. Mas, sobre vós que temeis o meu nome, levantar-se-á o sol de justiça que traz a salvação em seus raios. Saireis e saltareis, livres como os bezerros ao saírem do estábulo. Graças à ternura e misericórdia de nosso Deus, que nos vai trazer do alto a visita do Sol nascente.E tudo o que se manifesta deste modo torna-se luz. Por isto (a Escritura) diz: Desperta, tu que dormes! Levanta-te dentre os mortos e Cristo te iluminará.”(Ml, Lc, Ef).

Mas o verdadeiro sol que nasceu para toda a humanidade é Jesus – aquele que morreu e ressuscitou. O Natal, portanto, não pode ser tomado como uma comemoração em dissonância com a Páscoa. O mistério da Encarnação celebrado no Natal tem uma orientação pascal.

Os textos da infância de Jesus, apresentados em Lucas, mostram na criança de Belém e nos fatos que acompanham o seu nascimento o anúncio do evento pascal. Basta observar com atenção o paralelismo na narrativa do nascimento com a da sepultura.

O enfaixamento, como sinal dos cuidados maternais da mãe em 2,7 (cf. Ez 16,4, onde a ausência de enfaixamento é sinal de abandono): “Ela o enrolou em faixas e o acomodou na manjedoura”, parece tornar-se, em 2,12 sinal de impotência e fraqueza: “deitado (Keimenon) na manjedoura”. E ambos estão em paralelo com Lc 23,53: “E o enrolou em um lençol e o colocou no sepulcro” e “deitado na cruz”, como diz uma bonita canção popular: “No monte calvário eu vi uma cruz: é cama e travesseiro do meu bom Jesus”.

Importa celebrar o Natal com este sentido pascal. Importa também viver o Cristo que está em nós, a partir da consciência de que Deus se fez o homem para mostrar para nós que se importa com a nossa dor e que cuida de nosso futuro. Na pessoa de Jesus Cristo – Verbo encarnado – nós reconhecemos o dom do amor, da verdade, da esperança para todos os homens e mulheres do nosso tempo. Nisto consiste a beleza do Natal.

Assim, celebrar o Natal está para aquém e para além da “vontade de paz e da sincera solidariedade” da “presunção de uma paz realizada unicamente pelo homem”, da “história de uma criança que nasceu em Belém”, dos reis magos, dos anjos e pastores, da “troca de presentes e dos enfeites coloridos e iluminados”, da “fartura do banquete” e até mesmo da “solidariedade entre os povos”. Tudo isso pode ser bastante expressivo, mas não esgota a graça do Natal. A graça própria da celebração do Natal é a da nossa adoção divina. É a nossa participação na vida de Deus. É a aceitação da sua entrada na história da humanidade, na nossa história.

Viver um feliz Natal é, consequentemente, permitir que Jesus Cristo realize o seu desejo em nossa vida, é entregar a nossa vida a Ele, deixando que ele coloque a sua vida em nossa vida e assim renove a nossa esperança num futuro melhor.

Que acolhendo a Palavra viva e eficaz em nossos lares, possamos sentir neste Natal que Jesus nasce de novo e renova a nossa existência.

Daqui pra frente

Pe. Juliano Ribeiro Almeida

Seguir o discipulado

As Diretrizes gerais da ação evangelizadora da Igreja no Brasil para o período 2011-2015 (Documento 94) estão sendo estudadas pelas paróquias e comunidades de todo o país, especialmente nesse período de final do ano, quando fazemos as avaliações e os planejamentos pastorais. Não se pode fazer pastoral e promover evangelização à revelia, de qualquer jeito, “atirando pra todo lado”. Seguindo o clássico método ver-julgar-agir, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a partir do Documento de Aparecida (2007), traçou o seguinte objetivo geral para os próximos 4 anos: “Evangelizar, a partir de Jesus Cristo e na força do Espírito Santo, como Igreja discípula, missionária e profética, alimentada pela Palavra de Deus e pela Eucaristia, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, para que todos tenham vida, rumo ao Reino definitivo”.

As palavras que escolhemos são importantes, pois revelam as reais motivações que nos impulsionam e deixam claro que horizonte pretendemos seguir. O que significa dizer que queremos ser uma Igreja ao mesmo tempo “discípula, missionária e profética”? Significa que temos sempre de novo que partir de Jesus Cristo, voltar a Ele, recolocar-nos no caminho do discipulado, em formação permanente.

O Documento 94 apresenta, como último passo do processo de planejamento pastoral, a renovação das estruturas. O n. 138 diz: “A comunidade eclesial necessita pensar os organismos de articulação da ação (assembleias, conselhos) e os mecanismos de coordenação (equipes de coordenação)”. No 7º Encontro Diocesano de CEB’s, no início deste mês, o assessor que veio da CNBB deixou a impressão de ter “chovido no molhado”. Em sua fala, ele se disse surpreso com o fato de a Diocese de Cachoeiro de Itapemirim já vivenciar, há décadas, a setorização da paróquia que Aparecida propõe.

Então, surge uma inquietação: se o objetivo prático é esse e nós já o alcançamos, o que nos resta fazer então? Corremos o risco de nos acomodar com a ideia de que somos uma Igreja particular avançada, quase que pronta. Aí está o engano! Ser uma Igreja discípula requer um seguimento contínuo do Mestre, um constante voltar à fonte para renovar a juventude e a vitalidade, nunca contentando-se com o que já se tem, mas sempre buscando mais profundamente no infinito tesouro de Cristo.

Sem querer “inventar moda”, cabe a nós agora reavivar as estruturas que já temos organizadas: os conselhos, as pastorais e movimentos, os ministérios leigos, os círculos bíblicos… E isso só se faz a partir da redescoberta da Palavra de Deus, lida de forma orante, meditada no silêncio e praticada em comunidade. Mãos à obra e corações ao alto!

O Espírito de Assis

Por: Pe. Juliano Ribeiro Almeida

No dia 27 de outubro de 2011, o Papa Bento XVI estará em Assis para a comemoração dos 25 anos daquele famoso e polêmico encontro de líderes das mais diversas religiões do mundo com o Beato João Paulo II para um dia de oração pela paz. Era 1986. Estava em curso a chamada Guerra Fria, em que os Estados Unidos e as demais potências capitalistas confrontavam os países do então Segundo Mundo, de regime comunista.

Era a primeira vez na história que um papa se reunia fraternalmente com um grupo formado por patriarcas ortodoxos, pastores protestantes, monges budistas, rabinos judeus, imãs muçulmanos e demais líderes sikhs, bahais, hindus, jainistas, zoroastristas, de religiões africanas etc. O evento causou forte impacto midiático e arrancou aplausos de um lado e fortes críticas de outro.

Assis foi escolhida como sede desse encontro tão importante porque São Francisco foi, no século XIII, um homem muito à frente de seu tempo; foi um homem ecumênico: ele respeitava e mandava respeitar o livro sagrado dos muçulmanos e o nome de Alá, venerado por eles. Inspirou seus confrades a buscar um diálogo com o Islã, obviamente sem renunciar em nada à verdade que cria ser Jesus Cristo. Por causa dessa fama de pacífico do pobre de Assis, na alta Idade Média, um autor anônimo atribuiu a ele uma oração, que se tornou célebre, que inicia pedindo: “Senhor, fazei de mim instrumento de vossa paz… Onde houver ódio, que eu leve o amor; onde houver ofensa, que eu leve o perdão; onde houver discórdia, que eu leve a união…”.

O “espírito de Assis”, como dizia João Paulo II, foi confundido muitas vezes com a heresia do relativismo, o nivelamento de todas as crenças mundiais numa espécie de religião única, à moda new age. Por isso, João Paulo II fazia também questão de dizer que, em Assis, os fiéis das diversas religiões “não se reuniram para rezar juntos; mas se reuniram para, juntos, rezar pela paz”, cada grupo seguindo sua própria cartilha.

Não se tratava de fazer sincretismo religioso e incentivar que tradições religiosas tão diferentes abrissem mão de seus conteúdos doutrinais para a confecção de uma colcha religiosa de retalhos. Tratava-se de fazer um grande exercício público de tolerância e fraternidade, mostrando que os diversos credos, embora crendo diferentes, almejam a mesma meta: a paz. Não só almejam, mas estão engajados, cada um no seu caminho próprio, na promoção dessa paz que, em última instância, é um sinal universal de que Deus existe.

A Porta da Fé

Por: Juliano Ribeiro Almeida

O papa Bento XVI convocou a Igreja católica para um Ano da fé, a partir de outubro de 2012, para celebrar os 50 anos do início do Concílio Vaticano II e também os 20 anos da promulgação do novo Catecismo da Igreja católica.

Enquanto os veículos de comunicação mostram o papa idoso começando a se locomover empurrado num andador – o que muitos consideram o início do fim –, ele continua demonstrando extraordinária vitalidade tanto de pensamento quanto de apostolado, ao modo do seu incansável antecessor. Ratzinger sabe muito bem a que veio; e talvez seja uma das mentes que mais compreendem os desafios do nosso tempo e mais profundamente percebem o fosso que nosso estilo de vida cavou na humanidade. Mais: está apontando caminhos. “Quem tiver ouvidos, ouça”.

Grupos tradicionalistas vinham pedindo que Bento XVI proclamasse um ano mariano, numa espécie de triunfalismo da fé católica sobre as outras tradições cristãs. E ele mais uma vez surpreende, percebendo que não é momento para os cristãos ressaltarem suas diferenças internas, mas sim para se unirem contra a ameaça externa comum: o relativismo, o indiferentismo religioso, o secularismo, o ateísmo.

A constituição Dei Verbum, do Concílio Vaticano II, ensina, no n. 5: “A Deus que revela é devida a obediência da fé”. Porém, a fé não é a vitória de bons argumentos apologéticos sobre a pura razão, como se se contrariassem naturalmente. Por sua vez, é necessário que a razão “se converta” de sua autossuficiência e considere a experiência humana não só a partir do laboratório do cientista, mas também sob a ótica da antropologia, da psicologia, da filosofia. Afinal, ciências não são só as biológicas, mas também as humanas. E essas abrem vastos espaços de importância para a fé.

O papa quer colocar em pauta a conveniência e mesmo a necessidade de o homem do século XXI ainda professar a fé. Inúmeras pessoas convivem com o receio de que, escolhendo “apenas uma” fé, acabem se tornando fundamentalistas e possam ser corresponsabilizadas pelos abusos que o fanatismo religioso já postulou. No entanto, confessar uma fé não significa fechar-se ao diferente ou isolar-se numa redoma de dono da verdade.

É para mostrar isso que Sua Santidade estará em Assis no próximo dia 27 de outubro para comemorar os 25 anos daquele memorável encontro de João Paulo II com os principais líderes das mais diversas religiões para orar pela paz mundial. Não há nada mais humanista no mundo do que as manifestações da fé.

Crescei ou multiplicai-vos?

Pe. Juliano Ribeiro Almeida

Reflita

Os dados sobre a religiosidade do povo brasileiro, do último recenseamento nacional, mostram o que já era evidente: o número de católicos vem diminuindo e o número de ateus e agnósticos vem aumentando. No meio estão os diversos matizes do cristianismo não-católico, que vêm crescendo, uns mais, outros menos.

Embora as instâncias maiores da Igreja católica demonstrem certa preocupação com esse fenômeno, nós que atuamos na base e convivemos com a realidade palpável não nos afligimos tanto com os dados. Por diversas razões:

1) Constatando que nossas celebrações e confessionários estão cada vez mais cheios, deduz-se que a diminuição oficial da porcentagem de católicos está afetando, na verdade, apenas aquela grande massa que já não participava efetivamente da vida da comunidade católica;

2) Vem crescendo na população a tolerância religiosa; com isso, muitas pessoas ateias, agnósticas ou que frequentavam cultos como o espiritismo e o candomblé agora estão tendo mais liberdade de se assumir, sem se sentirem forçadas a dizer-se católicas para evitar a discriminação;

3) Uma comunidade cristã está desautorizada a ter pretensões de grandeza. O movimento de Jesus, no dizer dele mesmo, deve buscar ser “fermento na massa” e não a própria massa. Jesus não mudou o discurso e não trocou de metodologia quando “muitos dos seus discípulos se retiraram e já não andavam com ele” (Jo 6,66). Ao contrário, perguntou aos Doze: “E vós? Não quereis também retirar-vos?” (v. 67). A diminuição do número de católicos só deveria ser preocupante se significasse uma queda na qualidade do testemunho que eles têm dado.

4) A multiplicação das seitas reflete o individualismo que marca a humanidade deste início de milênio. A religião passa a ser uma prestação de serviços, um produto de mercado. Ao invés de a minha igreja pautar a minha vida com uma ética comportamental, ela é que é pautada pelas minhas preferências. Eu busco uma denominação que concorde exatamente comigo (que seja a favor do divórcio, do aborto, do sexo antes do casamento, da homossexualidade…), que responda aos meus anseios e fantasias (cura física, exorcismo, milagre econômico…).

Ainda que também mostrem “produtos midiáticos” cada vez mais diversificados (Marcelo Rossi, Fábio de Melo, Reginaldo Manzoti, Robson do Pai Eterno etc), de acordo com o gosto do freguês, os católicos perderiam sua identidade e desvirtuariam sua missão se aderissem ao espírito de concorrência a todo custo.

Podemos Tudo?

Por: Juliano Ribeiro Almeida

Tinha que ser mesmo polêmica a recente decisão unânime do Supremo Tribunal Federal que reconhece a união homossexual como verdadeiro contrato civil, equiparado ao matrimônio “convencional” homem-mulher e até mesmo capaz de formar família, com todos os seus direitos e status. O que está em jogo é muito mais do que um lobby religioso ou resquícios da cristandade medieval – tempo em que as posições da Igreja eram muito consideradas nas decisões políticas –, como acusam alguns defensores eufóricos do “Estado laico”. Parece-me que a questão é muito mais profunda e filosófica do que insistem em afirmar.

Primeiramente, vale uma consideração sobre os termos: estão alegando que se deve dizer homoafetividade e não mais homossexualidade, trocando assim o conceito de sexo (macho e fêmea) pelo de gênero. Com isso, querem afirmar que o importante não é o que vem determinado pela natureza, pela herança genética ou biológica (sexo masculino ou feminino), mas sim o que é escolhido pelo indivíduo (gênero masculino ou feminino, independentemente do órgão genital). Ao meu ver, há um sério problema etimológico aí, porque homoafetivo significa “afeto entre iguais”, o que pode designar também amizade, coleguismo etc; enquanto relação homossexual poderia significar tanto  “relação com o mesmo sexo” quanto “sexo entre iguais”.

Afinal, existe mesmo uma “natureza humana”, ou não? A moral cristã ensina justamente que deve ser evitado tudo o que vai “contra a natureza”: se a própria constituição biológica humana aponta para a complementaridade sexual entre o homem e a mulher, isso é uma lei natural; e tudo o que contraria essa lei inscrita na natureza e na consciência humana é, portanto, antinatural e não legítimo.

Mas as correntes de pensamento surgidas a partir da revolução sexual do século XX abominam esse conceito de lei natural, afirmando que o ser humano é uma construção que parte do contributo genético, sim, mas muito mais do contexto cultural e da própria livre decisão, isto é, a partir de suas preferências, seus gostos pessoais. Assim, afirmam os defensores dessa teoria, qualquer pessoa pode escolher um gênero, masculino e feminino, tanto para a sua identificação na sociedade como para sua realização afetivossexual; e não pode haver absolutamente qualquer predeterminação da natureza, da cultura ou da família sobre o indivíduo, que o pressione a se comportar sexualmente desta ou daquela maneira…

O que está por trás dessa argumentação toda é a absolutização perigosa dos ideais democráticos e a ampliação sem limites do sufrágio universal para todos os âmbitos da humanidade, supondo a ideia de que nós podemos votar, opinar e decidir sobre todo e qualquer aspecto da nossa vida pessoal e social. Não existe Deus, não existe natureza, não existe força alguma que venha nos dizer o que somos e o que devemos fazer.

Se não existisse natureza humana, então não existiria identidade humana. Então Kaspar Hauser não seria um homem e sim um bicho; o feto não seria um ser humano, como afirmam os abortistas; os judeus não seriam humanos, como acreditava Hitler… E tudo seria legítimo, desde que aprovado pela “maioria”, pela nova cultura, pelo modismo do momento no Estado laico. Se pudéssemos mesmo “revogar” as leis da natureza, tentaríamos até mesmo, por decreto de lei ou jurisprudência no Supremo, derrubar a lei da gravidade.

Mãe, palavra que inspira o amor

Por: Gustavo Lins

O dia das mães conforme é celebrado pela humanidade tem suas bases fincadas na mitologia grega, pois esse dia ou período remonta a chegada da estação da primavera naquela região sendo consagrado à deusa Rhea, considerada a mãe de todos os deuses.

Na Inglaterra, no Século XVII, o quarto domingo do tempo quaresmal era dedicado para festejar o papel materno, sendo concedido às trabalhadoras o dia de folga para ficarem com suas mães.

Apesar desses detalhes não serem conhecidos pelo grande público a respeito do dia das mães, essa comemoração tomou forma a partir de uma mulher americana, filha de um pastor, chamada Ana Jarvis, que lutou para instituir o dia das mães nos Estados Unidos da América.

No ano de 1905, Ana sofreu com a depressão em consequência da morte de sua mãe. As amigas de Ana preocupadas com sua situação de saúde decidiram ajudá-la a superar essa perda irreparável, com uma comemoração com objetivo de perpetuarem a memória da mãe de Ana Jarvis. E Ana assim quis que essa comemoração fosse partilhada com todas as crianças, filhos e filhas que tem suas mães vivas, como àquelas que se encontram na Casa do Pai e como meio de fortalecer o respeito e os laços afetivos que os filhos devem ter para com seus pais.

Depois de três anos lutando para que a data fosse oficializada pelo governo americano, no dia 26 de abril de 1910, o governador de Virgínia Ocidental, incluiu o Dia das Mães no calendário oficial de comemorações do citado estado e depois outros estados dos Estados Unidos incorporaram a data em seus respectivos calendários.

No ano de 1914 o presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson, unificou a celebração naquele país, e estabeleceu que o Dia das Mães fosse comemorado no segundo domingo do mês de maio de cada ano. Logo em seguida, muitos países adotaram a data festiva em seus calendários comemorativos, entre eles, o Brasil.

No Brasil essa data foi comemorada pela primeira vez em 1918, pela Associação Cristã dos Moços de Porto Alegre. Em 1932, o presidente Getúlio Vargas, oficializou o segundo domingo do mês de maio. Em 1947, o arcebispo metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, Dom Jaime de Barros Cardeal Câmara, determinou que essa data fosse celebrada em sua arquidiocese, seguida, pelas demais dioceses do Brasil.

Jovem! Pare, pense e respire

Por: Fr. Didier Esperidião Neto

O tempo

Nosso tempo é uma correria, não temos tempo para o outro e também para Deus. O relógio corre e não percebemos seu constante movimento. Neste passar do tempo, queremos tudo rápido e não temos paciência para esperar. Dar tempo ao tempo é válido? Jovem, caminhe dando pequenos passos, pare para perceber a vida, não passe pela vida sem percebê-la. Deus está em nossa realidade e Ele é a vida.

No tempo, devemos saborear o bom sabor de Cristo, dar sabor a vida escutando a Deus. Somos seres em constante construção, na correnteza do tempo que passa, não devemos seguir a correnteza por seguir, mas ao longo desse caminho ir percebendo o que encontramos nas margens impulsionando a vida até o grande mar, onde nos tornamos participantes da igualdade na grande diversidade.

Pelas margens vamos formando até o mar muitas histórias alegres e tristes em que aprendemos e aperfeiçoamos para deslanchar em Deus. Ser em Deus, “permanecei no meu amor”. Perceber nossa vida imersa na oração do Pai Nosso (estamos escritos no livro do Seu Coração), aproximar do mar – Deus no irmão, respeitando sua particularidade e individualidade.

Queremos tudo muito rápido… imediatismo, e não percebemos a simplicidade da vida, estamos deixando Deus nos encontrar? Temos tempo para Deus? Ou damos todo nosso tempo para os deuses? Jovem! pare, pense e respire, perceba sua vida e veja as margens.

Busque a santidade:

Caiu? Levante-se.

Amar o irmão, ter humanidade.

Filho de Deus a imagem e semelhança.

Não julgues…

Busque sempre amar…

Busque a santidade e a verdade.

As pombas brigam… voam… e comem juntas.

Quem és para julgar o seu irmão?

Não te crês melhor.

Atua com caridade…

Vendo no outro o Senhor.

O terror de Realengo

Pe. Juliano Ribeiro Almeida

Que mundo é esse?

Um jovem de 23 anos descobre ser portador do vírus HIV, revolta-se contra o mundo e invade uma escola e sai atirando em direção a centenas crianças, com o objetivo de matar o maior número possível. Achávamos que isso era coisa de adolescente rico dos Estados Unidos viciado em videogame… Mas agora descobrimos que o terror a que assistíamos pela TV ronda a vizinhança e está mais próximo de nós do que podemos imaginar.

Talvez não seja o momento de se perguntar novamente sobre a liberação do porte de armas no Brasil, nem de criticar a transformação da violência em produto midiático. Talvez agora seja hora de simplesmente chorar e lamentar essa tragédia. Mas uma coisa é certa: a humanidade não está dando conta de suas próprias angústias nessa mudança de época. São crises demais para enfrentarmos de uma vez só.

A pergunta que não quer calar: o que passa na cabeça de um maníaco como esse atirador de Realengo? Quem deu a ele a impressão de que ele tinha o direito de descarregar as suas mágoas em alguém? Há um extremo individualismo que nos ronda e nos tenta, fazendo-nos crer que nossos problemas estão no centro do universo e todos devem parar para se ocupar deles. Por bem ou por mal. Por solidariedade ou por medo. Afinal, estamos diante de um surto psicótico ou apenas uma pequena manifestação do egocentrismo nosso de cada dia?

A extrema inconsequência é o que mais me impressiona nesse triste episódio. Esse jovem não tinha nada a temer na vida, a não ser a própria angústia. É surpreendente constatar que, nas considerações que ele pode ter feito, perder a vida e carregar consigo a culpa pelo massacre eram um peso menor do que ter que lidar com o vazio existencial. Precisamos urgentemente criar espaços humanos onde possamos colocar de molho as nossas crises, onde possamos falar delas e aprender a rir delas.

Reformar ou apenas restaurar?

Pe. Juliano Ribeiro Almeida

Nesses dias, dois eventos do noticiário nos relembram a urgência de uma reforma política no Brasil: o primeiro deles foi Gilberto Kassab, dissidente do DEM, fundando um novo partido, o PSD, Partido da Social Democracia, que ele não admite ser “de direita nem de esquerda, nem de centro”. Nomear uma agremiação política não é mais comprometedor do que escolher o nome de um animal de estimação. A fundação de um Partido político está cada vez mais parecido com a de uma seita evangélica. Tudo bem que a Constituição de 1988 garanta a liberdade de expressão política e ideológica, mas deveria ao menos se exigir uma identidade clara, uma plataforma de conceitos defendidos e um programa de governabilidade que justificasse sua criação. A grande maioria dos partidos políticos em vigência hoje em dia não quer – nem pode – ser enquadrado como de direita ou de esquerda, como conservador ou progressista, como aristocrata ou democrata. É como brincava Carlos Drummond de Andrade: “não sou contra nem a favor, muito pelo contrário”…

O outro evento foi a morte de José Alencar, empresário mineiro bem sucedido, que entrou na política bem depois de enriquecer. Menciono isso porque, ao ler uma sua biografia, surpreendi-me com a clareza com que é tratado o interesse de Lula em ter José Alencar como seu candidato a vice-presidente, em 2002, para convencer os ricos de que a esquerda não estava tão à esquerda como parecia; e sendo o vice, na época, do PL (hoje PR), o conchavo acabou também mostrando que a direita não estava tão à direita como nos velhos tempos. Você pode chamar tudo isso de “acordo pela governabilidade” ou então de “bagunça ideológica” mesmo. Como preferir.

Eu me lembro que, quando estudei geografia no finado “segundo grau” (hoje Ensino Médio), todos nós tínhamos que saber organizar a realidade em primeiro, segundo e terceiro mundos, direita e esquerda, ditadura e democracia, oligárquico e popular. Era mais fácil, tínhamos mais segurança e sabíamos onde estávamos pisando. Pensar o mundo a partir de Karl Marx era mais tranquilo, porque tudo parecia estar definido pelo crivo da luta de classes. As análises de conjuntura eram repletas de maniqueísmos políticos. Sabíamos identificar radicais, pelegos, militantes, retrógradas, republicanos, liberais.

Agora, é possível ouvir um parlamentar do Partido Progressista defendendo a tortura, um outro, do Partido dos Trabalhadores, propondo a relativização das leis trabalhistas e um terceiro, do Democratas, depreciando a ação da ex-militante contra a ditadura. Nomes quase idênticos estão de lados opostos: PMDB (mobilização democrática) e DEM (democratas); PCB (comunista brasileiro) e PCdoB (comunista do Brasil). Por outro lado, nomes historicamente inconciliáveis estão aliados até que a morte os separe. Vai entender…

Leitura Orante da Bíblia

Por Pe. Dalton Penedo

Depois do Sínodo dos Bispos e da Assembléia Diocesana tem-se ouvido uma expressão que alguns podem não entender: Lectio divina, ou leitura divina ou em Deus.

O que vem a ser isso? Trata-se de ler a Bíblia em oração, ou de fazer da Bíblia uma fonte de diálogo ou conversa com Deus.

Pega-se a Bíblia e, a partir de um texto, vem a conversa com Deus: o louvor, a súplica o compromisso de vida, ligando a vida diária com a Palavra. Ou melhor, fazendo da vida uma palavra de Deus também.

Sabemos que a oração é antes de tudo escutar Deus. Pela Bíblia Deus nos fala e nós escutamos com gratidão e humildade. Isto é o mais importante na oração: escutar Deus que fala ao nosso coração.

A fé nasce, sobretudo, não de um livro que é lido, mas de uma palavra escutada. Não de uma leitura pessoal, mas da pregação, como nos diz S. Paulo em Romanos 10,17. Não se considera tanto uma palavra escrita, mas uma palavra pronunciada com a força de um acontecimento sempre novo: a entrada salvadora de Deus na nossa vida. O povo de deus quis ter por escrito a Palavra ardente para conservá-la, como conservamos  nos vasos sagrados o Corpo e o Sangue de Cristo.

O mandamento de Deus em deuteronômio 6, 4-9 começa com a necessidade de escutar. Hoje há muitas palavras. Tem-se dificuldade de ouvir. Na própria Liturgia fala-se muito, tantas palavras que afogam a Palavra de Deus. È assim que o começo da oração está na disposição de ouvir. Ouvir Deus, que também quer dizer estar ligado à realidade que nos cerca. Deus nos fala nos acontecimentos de cada dia, nas pessoas que encontramos, nas coisas que vemos e que sofremos. Tudo isso é apelo de Deus a um amor maior, ao serviço à luta pela justiça.

Para ouvir bem é preciso silêncio, por fora e por dentro. Isto é, um lugar calmo e o deixar preocupações, ansiedades e até medos.

Depois, é preciso ter pureza de coração. Um coração livre do orgulho e da vaidade. Por isso pedimos perdão das nossas falhas quando começamos a orar.

Devemos também renunciar o querer resultados, sentimentos, experiências “espirituais”, idéias bonitas, o agrado de si mesmo. É preciso abandonar-se nas mãos de Deus. E ter disposição de obedecer a Deus, pois nisso está a nossa vida.

Se tivermos distrações, voltamos em paz para o sentido da oração.

Desde o paraíso, o ser humano se esconde de Deus porque o desobedeceu. Mas deus sempre quis falar com os homens, como um pai fala a outros. Sempre atentos ao fato de que tudo em nossa vida cristã pertence a toda a Igreja, não é coisa só nossa. O que exclui atitudes individualistas, fora do ensino constante dos Papas e dos Bispos.

Na prática, como isto acontece?

Na leitura divina temos cinco grandes momentos, que podem se desdobrar em outros. São eles:

-  ler e reler o texto bíblico.

- meditar o texto: reparar as palavras, ver as que são importantes para si e para a Igreja e sua missão.

- escutar o texto: ver o que Deus quer falar, perceber a presença de Deus.

- orar o texto; adorar, suplicar, interceder, pelas necessidades da Igreja e do mundo.

- tomar compromisso com o texto: aceitar o que Deus nos manda fazer, a missão que recebemos.

Nós temos vários modelos de oração. O importante é estar com Deus, dar um tempo para Deus. O jeito escolhido para orar não pode atrapalhar. Na próxima vez, vamos olhar mais de perto várias formas de leitura orante da Bíblia.

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